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A Mostra Sesc de Artes 08 acabou dia 18 deste mês e registro aqui o grande acerto da curadoria em exibir uma retrospectiva dos curtas e longas do cineasta e artista plástico Cao Guimaraes. Ainda mais que a filmografia é de difícil acesso, fora de circuito. Se a proposta dessa Mostra foi provocar “pausas poéticas e instantes de ruptura”, os filmes do Cao provocam exatamente isso. Na telona, ficamos um palmo daquilo que a sociedade não absorve, o que me faz lembrar os excluídos do escritor João Antônio. Os retratados só não estão mais crus, devido às experimentações visuais que valorizam as cenas. Uma viagem. Eu fecho os olhos e ainda vejo o asfalto quente. Do Dominguinhos da pedra, ouço seu cotidiano e suas panelinhas, lembro do café feito pelo ermitão. Um pensamento em forma de bolha d’água. É o que eu espero do cinema.

“Andarilho”: primeiro encontro
por Carlos Alberto Mattos – 28/7/2007
Numa primeira visão, o novo longa que Cao Guimarães (veja o seu site) vai apresentar no Festival de Veneza me pareceu traduzir perfeitamente o impasse a que chegou a chamada “estética mineira do documentário”: de um lado, a sofisticação formal cada vez maior; de outro, a rarefação dos sentidos em troca do impacto da matéria fílmica.
Andarilho reúne, digamos, “performances” de três andarilhos nas estradas de Minas. A sinopse fala na relação entre caminhar e pensar, mas na verdade topamos com esses homens – feios, sujos e nômades – em pausas de suas andanças, quando falam para a câmera, conversam entre si ou ruminam solilóquios. O gaúcho Nercino é intenso, verborrágico e tem um tipo de paranóia mística que lembra nossa conhecidíssima Estamira. Ele acha, por exemplo, que veio ao mundo para pagar com o seu sofrimento a morte de Cristo. Paulão é introspectivo, não precisa de ninguém além de si próprio para conversar e divertir-se. Já Valdemar parece racional e organizado, aparentemente um homem comum. (mais…)