
Você conhece João Antônio? Sem nenhuma pista fica difícil saber quem é entre tantos outros com o mesmo nome. Segue aqui um breve relato desse que gostaria de apresentar: João Antônio Ferreira Filho é escritor e jornalista, mas ele não é mais, ele já foi. Morreu em 31 de outubro de 1986 no Rio de Janeiro. Dizem que de tão malandro, morreu sem se despedir de ninguém. Era paulistano, do morro da geada em Presidente Altino. Morou no subúrbio e foi um escritor premiado. O seu primeiro conto – Malagueta, Perus e Bacanaço – pegou fogo na casa onde vivia. Ele reescreveu tudo, o que não foi fácil, e ganhou o prêmio Jabuti de revelação em 1963. Chamou atenção com suas personagens reais, coisas da vida mesmo. Da vida dele, porque ele falava daquilo que via e vivia. E sempre dizia que ser escritor no Brasil não dava dinheiro. Isso o fez ingressar no jornalismo, o que foi uma grande contribuição para a área. Na revista Realidade, publicou o primeiro conto-reportagem que já se ouviu falar. Também trabalhou na revista Manchete, no Jornal do Brasil e no O Pasquim. No período do regime militar, atuou em diversos veículos da imprensa alternativa e criou o termo “imprensa nanina”. Em 1976, seu conto premiado virou filme, O Jogo da Vida, de Maurice Capovilla. Depois de um tempo, largou tudo e passou a dedicar-se integralmente à literatura. Produziu quinze livros, mas sempre se recusava a participar de cerimônias e nem de academias literárias. Aceitava apenas convites para palestras em escolas e universidades, onde sua obra é muito estudada, devido, não somente à sua personalidade ímpar que atraí olhares admirados, mas também pela incrível linguagem de reproduzir a voz da rua em sua obra. Ele achava que deveríamos conhecer nosso underground brasileiro, talvez um pouco de influência de Lima Barreto, outro grande escritor do qual João Antônio muito admirava.
Apesar de ler e admirar sua obra, não foi nos livros que conheci melhor a figura de João Antônio. E muito menos na Internet. Porém, não se pode negar o incrível fato de um site de relacionamento propiciar um fantástico encontro de várias pessoas interessadas no escritor. Alguns pesquisadores do Acervo João Antônio, atualmente depositado na UNESP, campus de Assis / SP, me convidaram para participar do ‘1º Colóquio 10 anos com/sem João Antônio’ em 2006. Apresentei um documentário produzido no tempo da faculdade, que fala sobre uma das paixões do João Antônio, a sinuca.
Então, foi nesse intercâmbio de informações, que conheci suas manias e seus desencantos, o olhar de jornalista, suas correspondências com os amigos e que mesmo sendo um boêmio era muito organizado. Lá ainda conheci uma amiga de longa data do escritor, que foi prestigiar o evento e ainda levou seu prato predileto, cuscuz à paulista. No acervo, pude ver seus bloquinhos de anotações feitos de papel do maço de cigarros, livros com dedicatórias, entre outros objetos pessoais. Gente de todos os cantos do Brasil. Nesse ambiente amistoso, o que mais ele prezava aconteceu: a socialização da literatura e de sua obra.
Anos depois de sua morte, pode-se dizer que João Antônio anda muito vivo naqueles que experimentam e apreciam a literatura brasileira. Como ele dizia: “Ninguém precisa me entender. Precisam é ler”.
Obs.: Já se passaram alguns anos do primeiro evento sobre João Antônio em Assis/SP. Muita coisa aconteceu nesse tempo: artigos em revistas e internet, biografia, algumas reedições e livros sobre sua obra, trabalhos de pesquisadores do Acervo que foi publicado pela Unesp e outras homenagens realizadas no RJ. As influências, inspirações e personagens desse cativante escritor ainda tem muito a dizer sobre nossa gente.
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