Era sempre assim, rapidinho espiava as manchetes dos jornais e as capas das revistas. As notícias muito interessavam, mas não havia dinheiro sobrando para aprofundar-se nas leituras. Mais uma passada de olho nas revistas de fofocas, a fim de ter assunto com a moça do mercadinho. E logo chegava à seção de palavras cruzadas, o que mais gostava na verdade. Era sempre assim, rapidinho ia até a banca de jornal atrás do seu passatempo preferido. A própria revista dizia que refinava o vocabulário. Para os colegas, tratava-se de um vício inteligente. Difícil mesmo era lembrar dos desenhos da capa, precisava ter cuidado para não comprar repetida. Era sempre assim, rapidinho voltava do trabalho e depois do jantar pegava as palavras para solucionar. Gostoso era começar uma zerada, novinha. Completar os quadradinhos, não deixar nenhum em branco. Como ficava contente em saber que a intérprete de Noel Rosa era Araci de Almeida. E acertar que o nevoeiro típico da capital inglesa é fog. Era sempre assim, rapidinho resolvia o nível médio. As cruzadas eram a sua vida. Quando passou para o nível difícil, parece que sua vida foi para o mesmo caminho. Mais trabalho por conta de um funcionário de férias. Já não conseguia encontrar a moça do mercadinho. E menos tempo para o passatempo. Era sempre assim, rapidinho empacava em questões que lhe faziam pensar sobre sua vida. Tem a coragem de? Indivíduo que vive feliz? A atitude esperada da pessoa resoluta? Não tinha coragem de olhar a resposta no final da revista. A sua vida era uma cruzada. E no momento, sem solução.





