Baiuca Cultural


O bar é um exercício de solidão
fevereiro 14, 2011, 9:19 pm
Filed under: botecagem | Tags:

“Passei horas deliciosas nos bares. O bar é para mim um lugar de meditação e recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível. Hábito antigo que se arraigou ao longo dos anos (…), passei nos bares longos momentos de devaneio, raramente conversando com o garçom, na maioria das vezes comigo mesmo, invadido por cortejos de imagens que não cessavam de me surpreender. Hoje, velho como o século, não saio mais de casa. Sozinho, nas horas sagradas do aperitivo, na saleta onde guardo minhas garrafas, gosto de lembrar dos bares que amei”.

Luis Buñuel em “Meu Último Suspiro” (Cosac Naify)

“Agora queria falar das bebidas. Como é um tema em que sou praticamente inesgotável, tentarei ser bem conciso. Os que não estejam interessados – desgraçadamente, eles existem – podem pular algumas páginas. (…) Meu drinque favorito é o dry martini”. Veja a receita pessoal de Buñuel aqui.

 

visto no blog Calmantes com Champagne 2.0



O direito de nos distrairmos
fevereiro 10, 2010, 2:12 am
Filed under: botecagem | Tags: ,

Apesar da ‘pouca’ idade que tenho, concordo plenamente com a crônica abaixo e para mostra que o tempo é meu amigo, digitei o texto inteirinho. A cada palavra mais simpatia pela causa, com o direito de nos distrairmos. Também porque o jornal dificultou o copiar e colar, o que não impediu minha vontade de compartilhar esse artigo genial. E se houver algum erro de digitação, desculpe a distração.

************************************

por Ignácio de Loyola Brandão, para OESP | Caderno 2 – 29/01/10

Deleto pela trigésima vez um e-mail que estão me passando e repassando, virou uma corrente (não me enviem correntes, faço questão de quebrá-las) sobre a questão de usar o voto nulo como arma. A internet tem momentos infernais, você não sabe como o seu endereço aparece em certos computadores e na tela surge de tudo, desde convocações de cidadania ao Boris Casoy xingando os garis, a protestos contra o corrupto governador de Brasília, mensagens de escárnio ao Sarney (repasso, tomei horror ao homem), chegando a oferta de Viagra ou me convocando para aumentar o pênis. Mandam só para mim, ou para todos os homens? Será que há tantos problemas assim na área masculina?

Fecho o computador, desço para ir ao banco. Ainda vou, apesar de poder fazer tudo pela internet. No banco, observo as trapalhadas das pessoas com as portas giratórias. Há os que hesitam, os que se confundem, há os indignados xingando os pobres seguranças que ouvem poucas e boas. Boas? A expressão me soa mal. O certo não seráouvem muitas e ruins? Apanho minha senha prioritária, mas uma jovem vem atrás de mim e também usa a prioritária, os espertinhos se multiplicam. Por que não? Se o governador Arruda é esperto, se o deputado da meia é, por que não sermos todos?

A fila do banco ainda é um momento em que converso com as pessoas, ouço histórias, reclamações, elogios e poesia. À minha frente, o violonista Nathan Schwartzman, um dos grandes músicos deste país, segue tranquilo e humilde esperando a vez. Imagino quantos neste banco cinhecem a excelência de Nathan, o que ele já encantou de plateias. Há quantos anos ele não dá um concerto, grava um disco? Dois guichês ficam livres ao mesmo tempo, hesito entre o sorriso de Rose e a afabilidade de Rita de Cássia. Elas são a prova de que ainda existe humanidade nos bancos, não é só máquinas e informática, botões, senhas, números, cifras. Dois minutos de conversa, três, mesmo que haja alguém impaciente atrás (e quem é paciente nesta cidade?) (mais…)



‘Pensar o impossível’
dezembro 2, 2009, 1:16 am
Filed under: botecagem | Tags: , , ,

por Luiz Zanin

Uma vez conversava com a adorável criatura que foi João Antonio, quando o papo se desviou da literatura e acomodou-se numa paixão comum de entrevistador e entrevistado – o jogo da sinuca. João era louco pelos grandes jogadores que conhecera na noite paulistana, que ele varava indo de salão em salão nos quais se pratica a arte do taco e da bolinha branca. Desse périplo constante madrugadas adentro tirou material para sua obra-prima, o conto Malagueta, Perus e Bacanaço, que até filme virou.

Entre os jogadores, João tinha apreço por um em particular, o mitológico Carne Frita. Via nele uma espécie de Picasso, de Miles Davis do taco e do giz. Um artista, em suma. Na conversa comigo, João disse mais ou menos assim: “O que me surpreende não é que o Frita faça aquilo que faz; o que me assombra é que ele pense que é possível fazer aquilo”.

Muitas vezes meditei sobre essa frase do João e, domingo, me lembrei dela de novo ao testemunhar o inacreditável, estupendo, improvável gol de Diego Souza no Atlético Mineiro. Que topete! Que atrevimento! Achar que poderia pegar uma bola espirrada do goleiro, dar-lhe um tapa de primeira, com carinho mas quase com desfaçatez, do círculo central, e enfiá-la por cobertura no fundo do gol adversário! É preciso ter muita confiança no próprio taco, como tinha o próprio Carne Frita, personagem verídico do meu amigo João Antonio. (mais…)



Bar ruim é lindo, bicho!
novembro 17, 2009, 1:48 am
Filed under: botecagem | Tags: ,

por Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil. (mais…)



Botecos
outubro 7, 2009, 3:08 am
Filed under: botecagem | Tags:

  Luís Fernando Veríssimo,  A Mesa Voadora

 Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas. Era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente vinha se especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar. Seu rosto se iluminava na frente de um boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois contava para os amigos. — Uma glória. Sabe ovo boiando em garrafão com água? — Repelentes, é? — As galinhas não os receberiam de volta. A própria mãe! Descrevia o boteco com carinhoso entusiasmo. — E que moscas. Que moscas! Só não tinha paciência com o falso sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido pretensioso. Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono procurando por toda parte e gritando para a mulher: — Cadê o palito? (mais…)




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.