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por Luiz Zanin
Uma vez conversava com a adorável criatura que foi João Antonio, quando o papo se desviou da literatura e acomodou-se numa paixão comum de entrevistador e entrevistado – o jogo da sinuca. João era louco pelos grandes jogadores que conhecera na noite paulistana, que ele varava indo de salão em salão nos quais se pratica a arte do taco e da bolinha branca. Desse périplo constante madrugadas adentro tirou material para sua obra-prima, o conto Malagueta, Perus e Bacanaço, que até filme virou.
Entre os jogadores, João tinha apreço por um em particular, o mitológico Carne Frita. Via nele uma espécie de Picasso, de Miles Davis do taco e do giz. Um artista, em suma. Na conversa comigo, João disse mais ou menos assim: “O que me surpreende não é que o Frita faça aquilo que faz; o que me assombra é que ele pense que é possível fazer aquilo”.
Muitas vezes meditei sobre essa frase do João e, domingo, me lembrei dela de novo ao testemunhar o inacreditável, estupendo, improvável gol de Diego Souza no Atlético Mineiro. Que topete! Que atrevimento! Achar que poderia pegar uma bola espirrada do goleiro, dar-lhe um tapa de primeira, com carinho mas quase com desfaçatez, do círculo central, e enfiá-la por cobertura no fundo do gol adversário! É preciso ter muita confiança no próprio taco, como tinha o próprio Carne Frita, personagem verídico do meu amigo João Antonio. (mais…)
Luís Fernando Veríssimo, A Mesa Voadora
Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas. Era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente vinha se especializando — um refinamento da sua paixão — no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar. Seu rosto se iluminava na frente de um boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois contava para os amigos. — Uma glória. Sabe ovo boiando em garrafão com água? — Repelentes, é? — As galinhas não os receberiam de volta. A própria mãe! Descrevia o boteco com carinhoso entusiasmo. — E que moscas. Que moscas! Só não tinha paciência com o falso sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido pretensioso. Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono procurando por toda parte e gritando para a mulher: — Cadê o palito? (mais…)