Baiuca Cultural


febricitante
fevereiro 10, 2011, 12:45 pm
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Febre é um prazer. O corpo estremece bêbado. Encolhido. Calor e frio ao mesmo tempo. A pele, sensível. Chega a doer. Ardor. Nada de delírio. Bom mesmo é arrepio. Suor. Frio.



diálogo de vida e morte
dezembro 10, 2010, 5:48 pm
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- ontem lembrei de você lendo o jornal na seção fúnebre.
- melhor não perguntar o motivo. E aí, o que tinha de bom lá?
- junto aos anúncios fúnebres sempre tem alguns mais elaborados, os parentes mandam a foto da pessoa contando um resumo da vida, enaltecendo seus grandes  feitos e tal.
- e por que você lembrou de mim?
- parece que o cara não deu muito certo na vida. Um japonês que morava no Brasil foi trabalhar no Japão. Mas era velho para a coisa e voltou sem porra nenhuma. E ele gostava de mandar cartões de natal para os conhecidos com piadas tirando todo mundo.
- vamos pular a parte de não ter dado certo na vida. Estou gostando do caso.
- calma que tem mais. Só que já estavam prontos para mandar uns 100 cartões de natal. E ele morreu. O irmão mesmo assim resolveu enviar todos.
- qual o nome dele? Quero procurar essa matéria.
- não é matéria, é anúncio fúnebre.
- parece mais um conto.
- será que tem na internet?
- não tem.
- vou digitar aqui. ”Título: cartões de natal já estavam prontos. Depois de passar anos trabalhando em diversos empregos Sergio A. decidiu tentar a sorte no Japão. Como dekassegui, viajou por meio de uma agência que já garantia o seu emprego. Passou por dois trabalhos, mas a economia japonesa estava em um mau momento. Como Sergio também já tinha mais de 50 anos – idade avançada para o mercado de lá -, ele não conseguiu bons empregos nem economizar. Voltou para o Brasil.”
- acabei de ver, hoje é missa de sétimo dia dele.
- “Desde jovem, também gostava de jogar tênis de mesa. Participou de campeonatos na colônia nipo-brasileira. Com muitos amigos, anualmente enviava cartões de natal a todos. Brincalhão além do típico “feliz natal” mandava mensagens alegres para cada um. Mais de cem já estavam prontos, quando ele morreu, no dia 12, aos 67 anos. Seu irmão, a pedido dele, os colocou no correio.” Fim. Assim mesmo, tudo curto e rápido.
- interessante porque sempre colocam os defuntos como ganhadores do prêmio Nobel e esse cara não tinha grandes feitos a nao ser o campeonato de pingue-pongue e de escrever cartões de natal anualmente.
- tem a foto do figura também. Quer ver?
- sempre assim, fulano foi presidente de não sei o que, fazia obras de arte, ajudava as criancinhas, salvava animais na África e ainda escreveu 200 livros.
- esse é o contrário.
- vamos na missa dele hoje?


em forma
dezembro 1, 2010, 10:03 pm
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Primeiro dia da promessa a ser cumprida até o final do ano. Recuperar a boa forma.  A trilha era estreita e havia um vai-e-vem de seres andantes, espécies de porte físico exemplar. Os atletas comovem os menos devotados. Não podia interromper o percurso sob olhares alheios, deveria ir até o fim e voltar. O bigode suava. Dor de cabeça, mãos inchadas. Aves de rapina rondavam o corpo já cambaleante. Mais alguns passos e tudo terminaria. Missão comprida mesmo. Em fase de recuperação, devorou alguns sonhos e uma carolina. Agora sim, em boa forma.



cruzadinhas
junho 24, 2010, 9:53 pm
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Era sempre assim, rapidinho espiava as manchetes dos jornais e as capas das revistas. As notícias muito interessavam, mas não havia dinheiro sobrando para aprofundar-se nas leituras. Mais uma passada de olho nas revistas de fofocas, a fim de ter assunto com a moça do mercadinho. E logo chegava à seção de palavras cruzadas, o que mais gostava na verdade. Era sempre assim, rapidinho ia até a banca de jornal atrás do seu passatempo preferido. A própria revista dizia que refinava o vocabulário. Para os colegas, tratava-se de um vício inteligente. Difícil mesmo era lembrar dos desenhos da capa, precisava ter cuidado para não comprar repetida. Era sempre assim, rapidinho voltava do trabalho e depois do jantar pegava as palavras para solucionar. Gostoso era começar uma zerada, novinha. Completar os quadradinhos, não deixar nenhum em branco. Como ficava contente em saber que a intérprete de Noel Rosa era Araci de Almeida. E acertar que o nevoeiro típico da capital inglesa é fog. Era sempre assim, rapidinho resolvia o nível médio. As cruzadas eram a sua vida. Quando passou para o nível difícil, parece que sua vida foi para o mesmo caminho. Mais trabalho por conta de um funcionário de férias. Já não conseguia encontrar a moça do mercadinho. E menos tempo para o passatempo. Era sempre assim, rapidinho empacava em questões que lhe faziam pensar sobre sua vida. Tem a coragem de? Indivíduo que vive feliz? A atitude esperada da pessoa resoluta? Não tinha coragem de olhar a resposta no final da revista. A sua vida era uma cruzada. E no momento, sem solução.



moscação
maio 5, 2010, 7:57 pm
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Meus pés não alcançam o chão. Por isso posso voar.

“Pendurado de banda
No vão da varanda
Do prédio a rodar
Não sei mais se é o mundo
Que cai aos meus pés
Ou de pernas pro ar”

Trecho da canção Embebedado, de Chico Buarque e José Miguel Wisnik

Depois do flagra, ela bateu asas e voou.



cartão-postal
fevereiro 10, 2010, 3:10 pm
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O cartão-postal que chegou da Alemanha não trouxe notícias.
Logo que vi a figura do Kafka, reconheci o remetente.
Uma conversa minha sobre Praga foi lembrada para o cartão chegar aqui.
Não é pouca coisa não, posso até me gabar de ter recebido tal proeza.
Ainda mais hoje em dia que a distância tornou-se conforto coletivo.
E a saudade, uma condição devido às ocupações cotidianas.
Chega dessa tagarelice sentimental, agora quero olhar para ele e apreciar seu silêncio.
Não precisa ser dito nada mesmo. Apenas reconher a delicadeza do momento.
Deixarei à vista para saber que um pouco de Berlim está bem perto de mim.
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vinil para usar e decorar
janeiro 7, 2010, 8:06 pm
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Porta-treco para guardar controles remotos, bijouterias e outros objetos. Uma peça funcional e decorativa, pode até pendurar na parede. As tigelas de vinil não são uma novidade, antigos artesões já modelavam os bolachões para vender em feiras de arte e pelas ruas do mundo inteiro. Com os avanços tecnológicos da música em formatos digitais e seus suportes, os discos tornaram obsoletos para uma geração mais recente e artigos raros e colecionáveis para os saudositas e admiradores do som peculiar do vinil. Há pouco tempo, foi introduzido no mercado uma remessa de artistas que gravam versões de seus álbuns em LPs e com esse resgate haverá ainda mais discos em desuso e encalhados. Assim, o acervo de vinil disponível para reciclar é grande, uma proposta sempre bem-vinda em tempos de preocupação ambiental. Mas que fique claro, os clássicos ficam bem longe do fogo!
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::: acesse ::: http://www.flickr.com/photos/galeria_urban/
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Serge não morreu
dezembro 11, 2009, 2:15 am
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Esse foi o Ano da França no Brasil e confesso que não posso mais viver sem o ‘meu’ francês. Serge Gainsbourg entrou na minha vida não faz muito tempo, mas já é grande minha admiração. Quando você vai além de ”Je T’aime Moi Non Plus” a coisa toda amplia, aí então você descobre um grande músico e que ele nem era tão feio como sempre dizem.
 
Em meados de junho fui na exposição ‘Gainsbourg: Artista, Cantor, Poeta, etc.’, o que despertou de vez minha curiosidade. Na parede do Sesc Av. Paulista havia um painel enorme com todas as capas de discos de Gainsbourg, além daqueles que ele produziu. Depois um show em homenagem, com participações especiais de Caetano Veloso e de Jane Birkin. Não fui, preferi não associar a imagem do Caetano ao artista francês. Ficar em casa ouvindo Comic Strip e Rock Around the Bunker me pareceu mais seguro.
 
Na internet tem muita coisa para ler e ver. E agora compartilho alguns links para inspirar: (mais…)


final fugaz
dezembro 10, 2009, 8:49 pm
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um breve relato
outubro 22, 2009, 1:31 am
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assis_out

Você conhece João Antônio? Sem nenhuma pista fica difícil saber quem é entre tantos outros com o mesmo nome. Segue aqui um breve relato desse que gostaria de apresentar: João Antônio Ferreira Filho é escritor e jornalista, mas ele não é mais, ele já foi. Morreu em 31 de outubro de 1986 no Rio de Janeiro. Dizem que de tão malandro, morreu sem se despedir de ninguém. Era paulistano, do morro da geada em Presidente Altino. Morou no subúrbio e foi um escritor premiado. O seu primeiro conto – Malagueta, Perus e Bacanaço – pegou fogo na casa onde vivia. Ele reescreveu tudo, o que não foi fácil, e ganhou o prêmio Jabuti de revelação em 1963. Chamou atenção com suas personagens reais, coisas da vida mesmo. Da vida dele, porque ele falava daquilo que via e vivia. E sempre dizia que ser escritor no Brasil não dava dinheiro. Isso o fez ingressar no jornalismo, o que foi uma grande contribuição para a área. Na revista Realidade, publicou o primeiro conto-reportagem que já se ouviu falar. Também trabalhou na revista Manchete, no Jornal do Brasil e no O Pasquim. No período do regime militar, atuou em diversos veículos da imprensa alternativa e criou o termo “imprensa nanica”. Em 1976, seu conto premiado virou filme, O Jogo da Vida, de Maurice Capovilla. Depois de um tempo, largou tudo e passou a dedicar-se integralmente à literatura. Produziu quinze livros, mas sempre se recusava a participar de cerimônias e nem de academias literárias. Aceitava apenas convites para palestras em escolas e universidades, onde sua obra é muito estudada, devido, não somente à sua personalidade ímpar que atraí olhares admirados, mas também pela incrível linguagem de reproduzir a voz da rua em sua obra. Ele achava que deveríamos conhecer nosso underground brasileiro, talvez um pouco de influência de Lima Barreto, outro grande escritor do qual João Antônio muito admirava. (mais…)




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